Anivaldo, perdoe o Boi Juvenal.

Tem rebuliço na Fazenda Modelo, tão bem contada pelo Chico Buarque. E não é que o boi Juvenal continua se achando mais igual aos outros bois iguais a ele, submetidos ao poder do Bípede? E com aquele seu olhar embaçado de boi que não enxerga um palmo diante do nariz, continua querendo brincar de touro, tentando atingir com falsos chifres o que vê pela frente.

A mais recente vítima da infame tourada da Folha de S.Paulo é uma das pessoas mais dignas, honradas e éticas que já conheci: Anivaldo Padilha, pai do ministro da Saúde Alexandre Padilha. E o ataque bovino tenta atingir o que Anivaldo sempre prezou: a honradez de sua história.

Pra quem não sabe:  Anivaldo Padilha, o Niva, tem mais de sete décadas de vida. É um homem religioso. É da Igreja Metodista. Foi preso no Presídio Tiradentes. O crime: ser cristão. Foi torturado na cadeira do dragão, onde levou choques elétricos, dor em nada comparável ao sofrimento de ter fugido do país quando a companheira estava grávida do filho mais velho,  que viria a ser ministro. No ano passado, a União pediu perdão público a ele e o declarou anistiado político. Pouco, mas justo, e ele tão feliz com essa revisão histórica.

Conheci Anivaldo quando trabalhava no Cedi, o berço de três das principais entidades civis brasileiras contemporâneas,  a Ação Educativa e o Instituto Socioambiental. A terceira é a Koinonia, fundada em 1994 por lideranças religiosas – entre eles o querido Jether Ramalho e Anivaldo. O que faz essa perigosa organização colocada sob suspeita pela Folha? Luta pelo diálogo religioso, pela democracia, presta serviços a comunidades de todo o Brasil, articula-se aos movimentos sociais, vai aonde o povo está. Qual é a acusação agora? Receber recursos para formar jovens agentes de saúde, que trabalharão com ações contra DST/Aids. Quem está por trás do complô? O ministro que mexeu com brios ao trazer médicos estrangeiros pro país e seu perigoso pai.

Quando Alexandre Padilha assumiu o Ministério da Saúde, Niva reafirmou sua independência. A matéria bovina veiculada hoje reconhece que desde 2009 Anivaldo não exerce função na coordenação de projetos, nem das instâncias de decisão da entidade. Mas coloca em xeque o fato dele participar de palestras e eventos relacionados à Koinonia, sem contudo esclarecer que Niva não recebe nem nunca recebeu por esse trabalho (uma coisa que foge à compreensão dos Bípedes que comandam o boi Juvenal).

Mais essa sujeira me deixou puta, é claro. Começou o jogo para desqualificar a pré-candidatura do Alexandre Padilha ao governo do Estado, tentando sujar a transparente história do Anivaldo, a quem deixo toda minha solidariedade.

No fundo, no fundo, o Boi Folha Juvenal pensa que é touro não passa de um porco mesmo!


Olhos do silêncio

(da cara Berna Toneto, que não gosta do moço do Facebook)

Agora o dono do Facebook sugere fazer pra mim, com total exclusividade e a custo zero, uma retrospectiva do “meu” 2013. Apesar da gentileza, quero não! Minha retrospectiva é somente minha e dela cuido eu. Afinal, o mocinho nem desconfia o que é visceralmente importante, pois não relatado, não chegou a alheios olhos devassos. Corre nas veias, feito sangue que não se vê mas faz pulsar o coração.

Como a mulher que me tirou o chão no hospital…

Conhecemo-nos em uma hora de visita, irmanadas pelo amor à doente com pneumonia. Estávamos apenas as três, num quarto de isolamento respiratório. Em meio à tosse da nem sempre paciente, à caixinha de chocolates que comemos juntas e às risadas. E ela, devagarzinho, foi revelando seus segredos, guardados em caixinhas de coragem e de medos. E a cada palavra os olhos brilhavam, como devem brilhar cada vez que senta no chão para brincar com os netos.

Em suas histórias os personagens não têm nomes. São anônimos. Tantos que nem sabe quantos. Feito aranha que puxa os fios, ela teceu uma rede silenciosa de solidariedade. Escondeu perseguidos pelas forças da morte. Arrumou abrigo para os mutilados. Cuidou de feridas do corpo e da alma. Mobilizou embaixadas e aviões. Protegeu homens, mulheres e crianças, sem ter no peito o distintivo de um partido político, uma organização ou um manifesto. Apenas amor diante da dor do outro.

– Eu nem sabia quem eram. Não sabia política, não entendia o que estava acontecendo.

– Essas pessoas eram de quais organizações?

– Não sei.  Era tonta pra essas coisas. Só sei que sofriam.

A dor passa, mas deixa marcas. Elas são reveladas em encontros fortuitos. Décadas depois, os desconhecidos se reconhecem no olhar de gratidão. Nas tentativas de aproximação. Ou no caso do casal desconhecido, que toca a campainha numa tarde quente.

– A senhora está vendendo este apartamento?

– Não. E nem sei se esses apartamentos podem ser vendidos, porque há um projeto de ampliação comercial na área.

– Que pena. Meu marido queria muito morar aqui. Vem cá, meu bem. Conversa com essa senhora.

O papo se estendeu porta adentro. Por poucos minutos. Apenas o bastante para que o homem, alto executivo de uma estatal, olhasse fundo seus olhos. Com gratidão. Com reconhecimento mudo. Sem palavras, a reverenciou em silêncio. Confirmou que estava bem, com saúde, cercada do amor da família, a mulher que lhe tirou da tortura, que o colocou em um voo para a Europa e que, sem dizer uma palavra, lhe salvou a vida.


Pra brotinha!

(da cara Berna Toneto, que não possui relógio, perdeu o celular e não tem calendário)

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Essa semana despencou em minha mesa, sei lá como nem porquê, um livro sobre distúrbios de atenção. E todos os meus conhecimentos de medicina obtidos na Universidade Livre de Google mais o tal livro de capa laranja me ajudaram a traçar o diagnóstico: eu tenho dislexia. Bingo!

Como cheguei a essa conclusão? Burrice minha.

Pensando bem, sou da turma da burrice das contradições. Não sou de fixações, numa vida errante de passadas largas. Não presto atenção em nada em especial, mas tenho uma porcaria de um radar, que capta sinais enigmáticos que não servem pra algo prático e nem prático assim. Vivo no mundo dos ares, que como canta o Milton é onde os poetas e os doidos vivem com seus pares. Tem hora que fico agitada feito cachorro sem bola, na maioria das vezes caio na letargia dos pensamentos e esqueço de desligar a panela de feijão.

Pensando bem, sou sem rumo. Ciganeei por caminhos que queria apenas descobrir sem estabelecer amarras. Com uma cara de pau sem limites, tentei me firmar no quem sabe?. Parece Rosa dizendo “Tinha medo não, tinha era cansaço de esperança”. Pensando bem, mas a vida não é mesmo um sem sentido? Não quis laços, mas passei meu tempo fechadinha nos compromissos, em amarras amorosas e dolorosas com geração passada e futura, sem obrigações… apenas assim.

Pensando bem, por que isso agora? Porque uma das minhas últimas burrices foi encasquetar com a primavera. Dane-se o descalabro de compromissos que não pedi e nem queria. Dane-se o relógio do coelho de Alice. Dane-se a obrigação. Passei mais de hora olhando as raízes de uma samambaia, assuntando quando vai nascer broto novo. Perguntei em silêncio pra samambaia (ela ouve pensamentos!) quando o filhote de folha ia dar o ar da graça. E em silêncio primaveril ela me pediu pra esperar, que germinação não segue os tempos humanos, tem suas manias e vontades, quede-se quietinha aí no seu canto que depois te conto.

Pensando bem, como de esperar quietinha tenho experiência fiquei paradona esperando o broto brotar. Ou a samambaia falar. Puxei cadeira pra não esperar em pé. E enquanto coçava o pé, pensei nas primaveras passadas. Em uma em especial, quando brotou um broto – na verdade uma brota – de nome mensageiro.

Quando vi a brotinha pela primeira vez, ela estava elegantemente trajada com um macacãozinho felpudo, azul marinho, com golinha branca. Usava fralda descartável, um luxo pra época. Tinha cara bolachuda, nariz de batatinha. Burrona completa que era de coisas infantis, achei que a mensageira deveria se manifestar aos berros. Que nada, ela só queria dormir. E foi dormindo que a peguei no colo, corpinho molenga que escorregava pelas minhas mãos inábeis. E quer saber? Aquele ser escorreguento, dorminhoco e mamador sem saber iria mudar minhas primaveras.

O cheirinho de sabonete branco, o peito de sobe-desce ritmado, o gosto meio adocicado (pois é, lambi a brotinha sem os pais saberem!), as caretas involuntárias e a mãozinha fechada despertaram um instinto desconhecido. A brotinha trouxe a mensagem: a primavera se efetiva não em um dia marcado no calendário encardido, mas nos tempos dados pela vida. É mais harmonia do que ritmo. É mais melodia que compasso. Não é renovação, é começo.

T.S.Elliot dizia que o fim de toda nossa busca será chegarmos onde começamos e ver o lugar pela primeira vez. A brotinha me mostrou uma busca que eu não sabia existir. Mandou bem na mensagem, e foi responsável indireta pela vinda de outra mensageira alguns meses depois. E dessas duas fica-me sempre a imagem da brotinha andante empurrando, dominante, o carrinho com a zoiuda dormitante.

Na última vez que a vi, ela estava passional: “Não gosto de você, tá?”. E eu, adultamente respondi: “Mas eu gosto de você, tá?”. Fizemos as pazes ali mesmo, comendo doce de manga. O tempo me distanciou da brotinha. Sem explicações, sem justificativas. As mensagens e chamegos enviados não chegaram à destinatária. Tinha de ser assim, ponto. Mas mesmo à burra distância, por anos celebrei a primavera em homenagem à brotinha, que já floresceu, engrandou, mas sempre será para mim a dorminhoca mensageira de boas notícias.

Contei essa história pra samambaia. Falei que joguei água benta e acendi vela pra brotinha numa pia sagrada. E confidenciei a ela que a mensageira está completando 23 anos e que, como nunca me liguei nessas coisas de aniversário, nem o meu nem o dos outros, não sabia o que dar de presente.

Bateu um vento no quintal. A samambaia balançou as folhas. E confessou: vem folha nova por aí. Vai se chamar Íris.


A vida não para, navegar é preciso.


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(do cara Beto Ruschel, no barco).

Toda prisão merece uma epopeia de fuga e rotinas são como prisões (Ilíadas), daquelas de filmes em ilhas perdidas?

Acho que quase isso.

A minha começa com a tentativa de saber o que houve por aí pelos mares do mundo enquanto eu dormia e dava-me o direito de, sonhando, refrescar a realidade real fazendo as correções de rumo ideais pra chegar a Ítaca.

Pode que tenham descoberto que, quanto mais alta a notícia das movimentações das pessoas que expõem suas ideias sobre a vida naquele programa da Globo, na página do UOL (las dos hermanitas), mais “aquilo”, prova que o moleque Zuckerberg quer de mim é que, sem prêmio algum pra mim e um tremendo prêmio pra ele, eu faça o mesmo aqui sendo mais marisco grudado às rochas.

Síntese: o Facebook (ou, pros íntimos, o FB) tem a mesma proposta de enriquecimento que o tal do BBB. E eu, que achava que ao reencontrar meus amigos Ulisses presos lá longe em Ítacas perdidas nos meios de ventanias do tempo temporais, pudesse achar meu caminho de volta eterno retorno pra mim mesmo, fico aqui dando voltas atrás do rabo.

A rede social, mais precisamente o FB, serve é pra pescar cardumes de pessoas infelizes, carentes de atenção e necessidade de auto-estima?

Aprisioná-las entre as grades de 15 minutos de fama sem que possam, antes saber, o que devem fazer com a fama (o poder e a grana)?

Por outro lado, como tudo tem dois lados, até mais que dois, pois que os fatos (e notícias) serão sempre multifacetados, dez por cento dos meus Ulisses – nem sei se isso, eu tocava violão em casa quando a primeira aula era de matemática ou estatística e quando não escapava delas dormia na classe – repentinamente abrem esta gaiola e me oferecem algo mais que o nada a não ser este balanço de barco jogado de um lado ao outro. Eles me (e)levam àquele estado de vôo, graça e liberdade que só a poesia “leve, alada e sagrada” possui quando quero rever Platão e, depois de um abraço quente e apertado, sentar pra tomar um cafezinho entre boas risadas que velhos amigos dão com lágrimas nos olhos quando ignoraram os temporais e se reencontram pelo cheiro da maresia.

Então, viver é preciso, encontrar caminhos/carinhos que nos norteiem na navegação, e possam sugerir o que fazer com nosso barco/corpo, é bão também! Mas, qualquer dia destes, eu esqueço de voltar ali no FB, vou estar perdido por minha conta e risco e feliz por aí sem precisar de rumos falsos.

(Aviso aos navegantes! A imagem que usei, no meio da borrasca, foi publicada pelo Ulisses Odisseu Liu Sai Yam).


Voando pro abacateiro

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(da cara Berna Toneto, pensando nas avoações do novo ano)

Não sou natalina nem reveiolenta. Daí que, em vez de esquentar a barriga no fogão pra cozinhar lentilha ou sair pra comprar roupa branca, reservei os últimos dias do ano pra limpar meus livros. Entre um Faulkner e um Bauman, ladeados pela coleção de gibis da Mônica, Agatha Christie e um tanto de tijolões de teorias, ia cantarolando as músicas do canal de TV.

Distraída em pensamentos passarinheiros, nem reparei que o sinal da TV caiu. E voltou sei lá porquê em outro canal. Despertei da distração com uma matéria do noticiário: milhares de balões brancos são libertos das redes no encerramento do ano, em pleno centro de São Paulo.

O repórter, com voz de falso entusiasmo, diz o texto pronto (daqueles que desde sempre a gente, com saco cheio do pescoção de feriado, escrevia num respiro, pra começar rápido as chamadas e cabeças das matérias da corrida de rua, as notas sobre as cores de calcinhas, o frio em Nova York e o calor das praias santistas e o aumento do preço do espumante, tudo sempre igual com cara de novo):

— Tudo começou em 1990, quando office-boys lançaram ao ar 100 balões, numa alternativa mais sustentável à tradição de jogar papel picado das janelas.

O pensamento voou com os balões brancos, que – ora vejam – são supostamente ecológicos, ou menos poluentes que as faturas e memorandos transformados em confetes. É, office-boys entendem de ônibus, das quebradas e das coisas!

Sortudos esses balões avoadores. Fazem o caminho essencial a todo balão que se preze, de só ter sentido quando rompe o medo e enche-se de esperança. Daí, gordos, seguem seu rumo, sem temer o desconhecido do céu nem a explosão da rarefação do ar. É assim como proseou Guimarães Rosa: “A liberdade é assim, movimentação”.

Quando criança, pai cantava sempre uma música de Carmélia Alves, contemporânea de Luiz Gonzaga, e que recentemente foi regravada pelo grupo Anima:

Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho,

Voou, voou, voou, voou

E a menina que gostava tanto do bichinho

Chorou, chorou, chorou, chorou.

Vem cá, sabiá, vem cá!

Eu ouvia, cantava com o pai e ficava triste com o sabiá (ou a sabiá, como queria o maestro soberano Jobim) que deixou a menina triste. Não atentava para o feliz do sabiá, que movimentou bico e asas, fez do buraquinho sua liberdade, fugiu do terreiro e foi cantar no abacateiro.

Balões e sabiás sabem que só muda o que tudo muda. Daí que o balão rodopia no ar, o sabiá redescobre o gosto do galho. A gente faz que entende, mas é só de mentirinha. E de forma sorrateira acredita que aquele segundo que separa um calendário do outro vai também mudar o ciclo. E dá-lhe promessas de transformações, que tudo se realize no ano que vai nascer, muito dinheiro no bolso e saúde pra dar e vender.

Pra 2013, vou deixar já pronta minha listinha de promessas:

Usar a alegria até mesmo nas tristes ações;

Beliscar sem culpa o cacho de uvas no supermercado;

Aprender a usar chinelas nos dias de frio;

Não perguntar das cores das tampas da panelas;

Dormir oito horas por noite para não bocejar em oito horas do dia;

Andar pelo menos 10 vezes nas correntezas das chuvas;

Ir às festas de aniversário, gritar épiqueépiqueépique e não assoprar velinhas alheias;

Reler Grande Sertão: Veredas pintando os trechos amados de azul, formando assim um arco-íris com as passadas leituras pintadas;

Musicalizar meus pensamentos e batucar os sentimentos, tendo na mente os versos de Bandeira;

Cultivar o dia da intecnologia, em que celulares, TVs, computadores, internet e liquidificadores terão seu merecido descanso;

Não engolir sapos, rãs ou quaisquer outros batráquios que impeçam as parcerias;

Aprender para depois poder aprender a ensinar;

E, inspirada por Riobaldo, perceber que mesmo não sabendo, aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.

Como são intenções que dependem dos atos, se não forem cumpridas fica mais uma: conquistar o perdão e aprender a difícil arte de me perdoar.

Sei lá se por influência dos balões e do sabiá, mas já estou sentindo o céu mais azul e o abacateiro mais verde para outras avoações!

 


Num bau…


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(Do cara Beto Ruschel, de volta)

Caras que são burros (como eu) fazem coisas que até Ele duvida.

Minha última burrice, das lapidares – depois de ir abrindo caixas de papelão, espalhando utensílios domésticos, livros, discos, CDs, papéis, documentos e roupa pelo chão -, incluiu ficar olhando um tempão prum pedaço da minha mudança que nunca termina pois não sei ainda onde quero morar…

Fiquei como o soldado norte-americano que na invasão da França na 2ª Guerra entrou no que restou de um galpão de fazenda bombardeado, olhou pros pedaços de vaca, ferramentas, feno por todo lado, e deu meia volta, saiu de fininho com saudade de casa e sem entender porque aquilo acontecia.

Na “penúltima” mudança, trouxe o mínimo indispensável de volume para um cara como eu viver por duzentos anos. Mas comecei a juntar coisas e, hoje, nesse calor de chove não chove, tive que desmanchar caixas, desmantelar arrumações mal feitas e, o mais engraçado, sentar distraído no chão com uma bermuda branca para, burramente irritado, culpar o “mundo”, e tentar de todos os jeitos tirar os fiapos de corda de sisal que entraram no eixo das rodinhas de um velho, muito velho baú.

Velhos baús não têm rodinhas, eu sei, mas este tem.

Explico.

Morava num lugar mínimo e para facilitar as coisas, tipo troca de lugar dos poucos móveis e limpezas, e o baú ia e vinha, pesado, com metro e vinte de comprimento, sessenta e cinco de profundidade e oitenta de altura.

Originalmente, ele chegara de perto de Porto Alegre, São Sebastião do Caí à mão direita de quem chega. Isso tem trinta e poucos anos, acho que quarenta. Havia uma loja/antiquário à beira da estrada. Eu entrei e ele saiu de lá comigo.

Em três ou quatro casas das por mim habitadas ele já guardou mantas e cobertores, escondeu roupas de inverno e embausou duas flautas (com partituras para iniciante), LPs queridos e fitas K-7 com registros de voz das pessoas de minha família contando suas vidas.

Até que resolvi adaptar as rodinhas para manejá-lo melhor.

Estava nesta cobertura de 30 metros quadrados e achei que o chão ficaria mais lindo com cimento queimado amarelo e brilhante. Arranquei um daqueles tapetes de petróleo que estavam colados no chão e fui falar com o zelador que era meu vizinho de porta.

– Vi que tem um pedreiro no prédio, ele é bom?
– É bão não – foi sua resposta com palavras invertidas na frase alagoana.
– Conhece outro?
– Posso chamá?
– Pode.

Arranjei um problema. Como ficar morando ali numa peça só (eu havia colocado minha cama sobre uma estrutura alta de madeira) sem estragar o serviço que faria? E o baú pesado? Onde colocá-lo?

A primeira solução foi pendurá-lo numas vigas de aço que, por erro de projeto na construção do prédio, apareciam no teto. A segunda foi passar uma temporada na casa de um grande amigo, o músico Marcelo Lima. Marquei de voltar pra casa em 20 dias e o pedreiro confirmou que o tempo seria ideal para que terminasse o serviço.

Mais ou menos na data passei em casa para saber das coisas; comigo estava outro irmão, o pianista Pepe Cisneros. Quando abri a porta, vimos o estrago. O piso estava todo rachado. O sujeito não sabia “queimar” o cimento e não havia um metro quadrado que se aproveitasse do chão; a única coisa perfeita na salinha, mas bastante empoeirada, era o baú, pesado, quieto e imóvel dependurado no teto.

Mandei chamar o autor da “obra” e ele veio.

Olhou, olhou, examinou tudo, andou por cima das rachaduras e fez cara de surpresa.

– Olhi, não sei porque ta preocupado, depois é só o senhor passar uma cerinha pur riba!!

Pepe e eu nos olhamos, ele nos olhou.

– To certo ou num to? – e piscou pra gente.

Dois meses depois fui buscar o Pepe no estúdio onde ele estava gravando. Entrei na técnica e sentei pra esperar que terminasse a gravação de um play-back para o disco de um cantor global. No arranjo a introdução era só o piano do Pepe tocando.

Sem me ver, ele fez a intro várias vezes ouvindo o click que marcava o ritmo até entrar a orquestra.

E perguntou de lá de dentro para o produtor.

– Essa tá boa?

O produtor relutou e pediu que fizesse outra.

– Que horas são?

– Quatro e meia – disse o engenheiro de som pelo talk-back.

– Deixa eu ouvir de novo – pediu o Pepe.

Todos nós ouvimos mais uma vez e, quando a orquestra atacou, o engenheiro parou a execução. A palavra final seria dele. Ouvimos a voz de sotaque cubano dizendo:

– Olha bitcho, tá boa si! Qualqué coisa, depois a genti passa uma cerinha pur riba!!!

Eu, nessa sexta-feira olhando o baú, descobri que ele guarda mais que ferramentas e utensílios domésticos.

Com paciência, esperando a chuva que não veio, com um alicate de bico liberei a rodinha que estava presa e empurrei o móvel feito por um velho marceneiro alemão com exatidão cirúrgica de encaixes na peroba de variedade já extinta.

Ele rodou suavemente, virou um pouco de lado. Mas parou exatamente onde eu queria.


Tomilho às estrelas

(da cara Berna Toneto, em 14 de junho de 2012, dia de seu aniversário)

 

O fujão com seus colegas

 

Nem tinha dado as oito da manhã, comecei a lavar roupa. Ainda sonada, esbarrei no vasinho de tomilho. E lá se foi ele, dois metros de altura abaixo.

Foi um segundo eterno. Parecia reafirmar a lenda (ou verdade, sei lá) de que nos instantes que precedem a morte, a vida passa todinha diante do olhar, como um filme de Kubrick. Em um segundo, ali na lavandeira, revi a historia do tomilho: cultivado em horta alheia, ensacado em plástico, vendido em supermercado, ganhou amor numa casa bagunçada para acabar seus dias em meio a cacos espalhados, terra pelo quintal, folhas amassadas e hastes destroçadas, sem ter cumprido a missão de qualquer tomilho que se preze, de temperar peixes e saladas e enfeitar o arroz de domingo.

Suspirei, tomei coragem e fui olhar o estrago.

O vaso tinha caído…em pé.

Maravilhoso, pensei. Nada de lei de física, que equaciona distâncias, pesos, volumes e velocidades. Nada de lei de murphy e suas manteigas lambuzando o chão. Nada de cacos e barro. Ereto, firme, o frágil tomilho parecia sorrir da aventura de um andar.

Chamei a filha para ver o “milagre”. A resposta foi simples:

– Que bacana. E só aconteceu porque é seu aniversário.

E me deu um beijo.

O tomilho mudou meu dia. Desci as escadas e passei bom tempo olhando o vasinho. Depois de juntá-lo aos amigos salsinha, manjericão e hortelã, fiquei pensando na vida. Com os pés no chão e a cabeça entre as estrelas, como diz seu Teixeira.

A filha tinha razão: o tomilho caiu em pé porque é meu aniversário.

Mudar de década causa um rebuliço na cabeça que sempre viveu e continua andando lá pelas estrelas. Tudo bem que é apenas uma data como outra qualquer, um dia atrás do outro. Mas fica uma sensação meio besta de urgências. Será que o tomilho cairá novamente em pé? Sem resposta a isso, hoje a maior urgência é de agradecimentos.

Torta de fé, agradeço aos homens e mulheres que povoaram e povoam minha vida, pois são a maior expressão da força divina da natureza. Entre eles estão o pai e a mãe, irmãos de sangue e de estrada, família de sangue e família estendida que me presenteiam diariamente com gestos e silêncios. A todos fico agradecida, por entenderem (tudo bem, muitos não entendem!) minhas ausências e distâncias, pois as nuvens são necessárias para poder pisar o chão.

Como não agradecer aos parceiros que dividiram ternura e intimidades? Amigos e amigas que fazem a vida mais leve. Mestres que abriram as portas do conhecimento. Comadres e compadres que ampliaram meu ventre de filhos. E ao ventre que gerou e pariu e deu sentido à existência e me fez a mais plena criatura do universo.

Agradeço à possibilidade de poder ver as montanhas de Ouro Preto e os quadros de Matisse, de ouvir Tom Jobim, Villa Lobos e Miles Davis, de poder chorar ao ler Rosa e Faulkner, de sentir nos dedos a maciez do algodão e o atrito dos grãos de arroz, de pisar a grama molhada no amanhecer na roça, de me extasiar com o café recém coado e espirrar com o pólen do girassol, de me lambuzar de manga e fechar os olhos com chocolate derretido. E de saber que lá no sítio dos avós a mexeriqueira cravo que plantei aos sete anos continua dando frutos.

Agradeço muito os parabéns neste dia, os feitos em agarros e beijos, os pronunciados em voz alegre por telefone, os trazidos pelos carteiros da tecnologia, os rezados nas preces silenciosas, os não expressos mas sentidos no fundo da alma, e até os esquecidos, que tanto se assemelham aos meus alheamentos.

E, por fim, agradeço ao tomilho, que faz minha existência melhor!